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Seminários debatem o legado da literatura infanto-juvenil brasileira nos 40 anos do personagem Flicts e da Revista Recreio

  O primeiro encontro foi dedicado à obra e vida de Ziraldo e à análise do livro "Flicts”, considerado um importante marco da literatura e do livro para crianças no país. A educadora e doutora em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP, Vânia Maria Resende, falou aos presentes sobre as contribuições de Ziraldo para a história literária no Brasil e para os avanços da indústria gráfica, além de discorrer sobre outros aspectos pioneiros de sua obra.

 A autora destacou que o lançamento de “Flicts” foi um importante momento da literatura infanto-juvenil no Brasil, uma vez que a natureza de sua composição reúne elementos que não se limitam à noção clássica de literatura, mas incluem contextos visuais múltiplos, que vão além do sentido lingüista. “Flicts é resultado de uma nova concepção de livro/literatura, na qual o visual é valorizado e novos caminhos são abertos diante dos leitores; é o que classificamos como leitura simultaneista”, explicou Vânia.

 O debate girou em torno da globalidade da percepção do espaço proporcionada pela obra de Ziraldo, onde os elementos da semiótica são fundamentais na percepção dos diversos aspectos de leitura. Vânia destacou também a importância do estilo verbo-gráfico-visual inaugurado com “Flicts”: “A amplitude da linguagem de Ziraldo mescla visual e verbal, leva a uma dimensão simbólica universal que permite leituras diversas. Ziraldo desenha-escrevendo e escreve-desenhando”.

 A escritora e roteirista Maria Gessy, responsável pela roteirização de diversas obras de Ziraldo para a TV e para o cinema, como “O Menino Maluquinho”, destacou o mundo infinito de significados que podem ser apreendidos da obra do escritor e defendeu que Ziraldo deve ser considerado além de tudo, um grande e verdadeiro poeta: “Em todas as suas obras Ziraldo persegue a narratividade e seu próprio ritmo poético, essa preocupação se traduz nas leituras que fazemos de seus livros”, destacou Maria Gessy. A roteirista falou também sobre o prazer e a facilidade de adaptar os textos de Ziraldo para o audiovisual: “Trabalhamos juntos e Ziraldo faz muitas pesquisas no desenvolvimento do livro que auxiliam o trabalho. É um processo criativo de transposição muito bom”, concluiu.

 Ao final do seminário, Ziraldo se dirigiu aos presentes e contou histórias de sua juventude em Minas Gerais, dos amigos e de sua vida. “Tenho pena de quem escreve para adultos, eles não têm esse prazer de ver o brilho no olhar das crianças”, encerrou.

 A tarde, o seminário contou com a presença da mestre em Literatura Maria Lucia Machens, também professora universitária de Português e Inglês e Literatura, e de Heloisa Padilha, mestre em Educação e Consultora do Núcleo de Leitura da Academia Brasileira de Letras. Estavam presentes no auditório do Salão os autores Ana Maria Machado, Ruth Rocha, Joel Rufino dos Santos e Ziraldo.

 Maria Lucia apresentou sua tese de mestrado, já no prelo para publicação, sobre Ruptura e Subversão na Literatura para Crianças a partir da publicação da revista Recreio, criada no fim de 68, em plena ditadura militar. Segunda ela, antes do início da revista, o universo da literatura infanto-juvenil era muito restrito: conformismo, obediência, modelo de criança “comportadinha” e valorização da submissão à autoridade. “A revista Recreio lançou autores cujos textos eram libertários”.

 As histórias publicadas na Recreio tratavam de temas factuais da época e proporcionavam questionamentos e reflexões aos leitores. “Havia respeito integral à inteligência da criança”. A publicação lançou escritores como Ana Maria Machado, Ruth Rocha e Joel Rufino dos Santos e teve seu apogeu entre os anos de 69 e 70, quando as edições semanais vendiam cerca de 250 mil exemplares.

 Em seguida, Heloisa Padilha fez uma explanação quase teatral, interagindo com a plateia com a exposição de slides animados, poses, gestos e brincadeiras para falar sobre A Revolução do Ensino de Língua Portuguesa depois do advento da Recreio. A partir de sua história pessoal, defendeu o ensino pela literatura. “É importante sair dos conteúdos formais para os estruturantes”, defende Heloisa.

 Segundo ela, o aprendizado da identidade brasileira, das consciências política e sócio-ambiental deve-se dar por meio dos contextos e emoções infantis, da imaginação, da filosofia e da literatura. “Filosofia é o ápice e os livros infantis estão cheios de filosofia”. Citando uma frase de Ziraldo, presente na plateia, completou que ler é mais importante que estudar.



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